Quando o pecado se instala no coração humano ele
segue o seguinte processo: 1) A raiz do pecado é lançar dúvida sobre a vontade
de Deus (Gn 3.1-3). Isto é produzido em nosso coração; 2) O pecado consiste em
uma negação da vontade de Deus (Gn 3.4-5), que também ocorre no nosso coração;
3) O pecado consiste em dar vazão aos sentidos (Gn 3.6), isto envolve nossas
atitudes; e 4) O pecado traz o medo e a separação da comunhão com Deus (Gn
3.7-10), isto afeta o nosso relacionamento com Deus.
Isto
nos mostra que, quando falamos de pecado, antes de olharmos exclusivamente as
atitudes, devemos olhar o coração. O sábio disse no livro de Provérbios: “sobre
tudo o que se deve guardar, guardo o teu coração, porque dele procedem as
fontes da vida” (Pv 4.23).
Vamos refletir mais sobre algumas implicações do que
é na verdade o pecado. Por isto, gostaria de voltar ao texto de Gênesis 3.1-10.
O Pecado não depende do ambiente
(Gn 3.1; cf Gn 2.7-9)
O
pecado não tem justificativa, quando olhamos o contexto de Gênesis 1-3. Observe
que Deus os criou segundo sua imagem e semelhança, com certeza isto incluía a
santidade, e os colocou em um jardim em que não havia pecado. Hoje poderíamos
dizer que aquele jardim era o melhor local do mundo para se viver.
Não havia pecado, ou maldade intrínseca no homem. Quando
acabou de fazer o homem e a mulher no sexto dia, diz as Escrituras, que “viu Deus tudo quanto havia feito, e eis
que era muito bom” (Gn 1.31). Isto mostra que o pecado não depende do
contexto ou ambiente social em que vivemos. Muitos hoje em dia querem
justificar o pecado nas circunstâncias adversas. Isso nos revela a grandeza da
rebelião do homem.
O pecado desta forma se constitui não apenas em um
erro ou falha, mas em uma rebelião contra o caráter santo de Deus. Somente
assim podemos ver o quão grande é o pecado humano e o quão grande é a Santidade
de Deus.
Hoje, o pecado faz parte da natureza do homem caído.
Por isso, ele vai pecar, independente do contexto em que vive. Conta-se que
certa vez um elefante e escorpião estavam à margem de um rio, planejando passar
em meio às águas densas e turvas. O elefante ao olhar ficou destemido, pois
sabia que por sua grandeza e força não teria problemas em passar. Já o
escorpião, vendo que não poderia passar para outra margem do rio, propôs ao
elefante que o levasse nas suas costas. O elefante relutou, pois desconfiava
que o escorpião pudesse picá-lo e com se veneno matar o elefante durante a travessia
do rio. Mas o escorpião depois de muitas juras convenceu o elefante. Então o
elefante colocou o escorpião sobre suas costas e quando eles estavam na metade
da travessia, ele sentiu aquela picada injetando o veneno na corrente sanguínea
do elefante. Então o elefante disse para o escorpião: “por que você fez isto?
Agora nós dois vamos morrer”. O escorpião, então, respondeu: “eu sei, mais isto
faz parte da minha natureza”.
O
Pecado consiste em uma Idolatria (Gn 3.4-6)
Todo pecado, de certa forma, constitui-se
em um pecado de idolatria, pois quando pecamos constituímos um ídolo pelo qual
estamos dispostos a pecar, a despeito da vontade de Deus.
O processo da idolatria se dá quando
alguém tem algo pelo qual está disposto a afrontar a santa vontade moral de
Deus. Desta forma estamos dizendo, nas entrelinhas, que encontramos uma vontade
mais sábia, santa e justa do que a vontade de Deus.
Por exemplo, muitas pessoas hoje
mentem para satisfazerem o ego. Logo, a vontade do seu ego, constituiu-se em
idolatria. Muitos homens e mulheres estão dispostos a fazerem o que for para
manter seus casamentos, mesmo que para isto seja necessário pecar. Desta forma
o seu casamento tornou-se um ídolo.
O ídolo, existencialmente falando,
sempre deseja receber toda nossa devoção e, em contrapartida, nós queremos que
nossos desejos e vontades pecaminosas sejam realizados. O ídolo então faz parte
de um processo de troca de vontades pecaminosas.
Podemos ver isto na vida de Adão e
Eva, quando Eva após ser contaminada pela dúvida lançada pela serpente e de ter
acreditado na sua mentira expressa (Gn 3.5; cf 2.17) permite que a inveja e a
soberba lhe estimulassem a tomar do fruto, pois, segundo a serpente, eles
seriam “como Deus” (Gn 3.5).
Vejamos também a vida de Saul,
quando não cumpriu a vontade de Deus, pois temeu mais a opinião do povo do que
a voz de Deus (Gn 2.24). Esse é o pecado do medo da opinião pública contrária,
do status. Na opinião de Deus isto se chama rebeldia e arrogância. Então Deus
lhe disse por meio do profeta Samuel: “tem
porventura o SENHOR tanto prazer
em holocaustos e sacrifícios, como em que
se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que
o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o
atender melhor é do que a
gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o
porfiar é como iniqüidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do
SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” (1 Sm 15.22-23).
O
pecado não pode ser resolvido com por meio do esforço humano (Gn 3.7-10)
O homem, quando observou a criação
com os olhos corrompidos pelo pecado, viu impureza naquilo que Deus havia feito
puro. E para esconderem-se da vergonha que o pecado lhes trouxe “coseram folhas de figueira, e fizeram
para si aventais” (Gn 3.7). A tentativa do homem em encobrir o seu
pecado foi frustrante e fracassada.
Seus esforços pessoais, para cobrir
seu estado de pecado diante dos olhos do Deus que Tudo Sabe, são no mínimo
ridículos e sem lógica. Mas além de uma tentativa frustrante, esta cena também
nos mostra como o homem muitas vezes tenta resolver o seu pecado com seus
esforços pessoais. Como se ele pudesse resolver o problema de sua rebelião
contra Aquele que é totalmente Santo, Justo e Bom.
Muitas pessoas hoje tentam
justificar seus pecados fazendo boas ações. Contribuindo para o bem do próximo.
Ao fazerem isto pensam que podem amenizar o problema do seu pecado. Não sabem
eles que, assim como Adão e Eva, estão tentando de forma frustrante “fazer
aventais para si” na busca de cobrir sua culpa. Mas, assim como Adão e Eva, o
homem moderno não percebe que esta atitude é inútil.
Na verdade, após o pecado, o homem
agora apresenta as causas e não os sintomas. Adão justifica o fato de estar
tentando se esconder da presença de Deus por causa de sua nudez. Quando a nudez
é apenas um sintoma, mas a causa verdadeira da atitude de se esconder de Deus
foi o pecado!
Quantas vezes apresentamos os
sintomas e não as causas. Eu tenho tentado revelar as causas dos meus pecados e
não os sintomas. Já pedi perdão a minha esposa, após certo desentendimento, no
qual externei muita chateação por causa de um atraso por parte dela. Mas,
depois percebi que não deveria pedir perdão somente pela minha chateação, mas
pelo meu egoísmo! O egoísmo foi a causa de minha chateação.
Assim, podemos concluir que o pecado
consiste em algo muito maior do que um pequeno erro ou deslize. Vivemos em uma
sociedade que tem banalizado o pecado como algo normal. Em nossos dias as
pessoas se mostram idólatras, onde preferem satisfazer seus próprios desejos,
no lugar da vontade santa de Deus. Esperando que seu ídolo (seus próprios
desejos) satisfaça suas expectativas. O pior é vermos pessoas buscando
justificar seus pecados com seus próprios esforços. Que vida de fuga e sem
esperança!
Devemos buscar na vontade de Deus o
nosso deleite, o nosso maior prazer e alegria. Mas o homem longe de Deus nunca
conseguirá. Somente por meio de sua graça podemos ser perdoados e capacitados a
servi-lo em santidade.
No
amor de Cristo,
Pastor
Gilberto Anselmo.
Soli
Deo Gloria
