segunda-feira, 23 de março de 2015

Entendendo o Ciclo do Pecado (Gn 3.1-10)


Quando o pecado se instala no coração humano ele segue o seguinte processo: 1) A raiz do pecado é lançar dúvida sobre a vontade de Deus (Gn 3.1-3). Isto é produzido em nosso coração; 2) O pecado consiste em uma negação da vontade de Deus (Gn 3.4-5), que também ocorre no nosso coração; 3) O pecado consiste em dar vazão aos sentidos (Gn 3.6), isto envolve nossas atitudes; e 4) O pecado traz o medo e a separação da comunhão com Deus (Gn 3.7-10), isto afeta o nosso relacionamento com Deus.
     Isto nos mostra que, quando falamos de pecado, antes de olharmos exclusivamente as atitudes, devemos olhar o coração. O sábio disse no livro de Provérbios: “sobre tudo o que se deve guardar, guardo o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Pv 4.23).
Vamos refletir mais sobre algumas implicações do que é na verdade o pecado. Por isto, gostaria de voltar ao texto de Gênesis 3.1-10.

O Pecado não depende do ambiente (Gn 3.1; cf Gn 2.7-9)

     O pecado não tem justificativa, quando olhamos o contexto de Gênesis 1-3. Observe que Deus os criou segundo sua imagem e semelhança, com certeza isto incluía a santidade, e os colocou em um jardim em que não havia pecado. Hoje poderíamos dizer que aquele jardim era o melhor local do mundo para se viver.
Não havia pecado, ou maldade intrínseca no homem. Quando acabou de fazer o homem e a mulher no sexto dia, diz as Escrituras, que “viu Deus tudo quanto havia feito, e eis que era muito bom” (Gn 1.31). Isto mostra que o pecado não depende do contexto ou ambiente social em que vivemos. Muitos hoje em dia querem justificar o pecado nas circunstâncias adversas. Isso nos revela a grandeza da rebelião do homem.
O pecado desta forma se constitui não apenas em um erro ou falha, mas em uma rebelião contra o caráter santo de Deus. Somente assim podemos ver o quão grande é o pecado humano e o quão grande é a Santidade de Deus.
Hoje, o pecado faz parte da natureza do homem caído. Por isso, ele vai pecar, independente do contexto em que vive. Conta-se que certa vez um elefante e escorpião estavam à margem de um rio, planejando passar em meio às águas densas e turvas. O elefante ao olhar ficou destemido, pois sabia que por sua grandeza e força não teria problemas em passar. Já o escorpião, vendo que não poderia passar para outra margem do rio, propôs ao elefante que o levasse nas suas costas. O elefante relutou, pois desconfiava que o escorpião pudesse picá-lo e com se veneno matar o elefante durante a travessia do rio. Mas o escorpião depois de muitas juras convenceu o elefante. Então o elefante colocou o escorpião sobre suas costas e quando eles estavam na metade da travessia, ele sentiu aquela picada injetando o veneno na corrente sanguínea do elefante. Então o elefante disse para o escorpião: “por que você fez isto? Agora nós dois vamos morrer”. O escorpião, então, respondeu: “eu sei, mais isto faz parte da minha natureza”.

O Pecado consiste em uma Idolatria (Gn 3.4-6)

            Todo pecado, de certa forma, constitui-se em um pecado de idolatria, pois quando pecamos constituímos um ídolo pelo qual estamos dispostos a pecar, a despeito da vontade de Deus.
            O processo da idolatria se dá quando alguém tem algo pelo qual está disposto a afrontar a santa vontade moral de Deus. Desta forma estamos dizendo, nas entrelinhas, que encontramos uma vontade mais sábia, santa e justa do que a vontade de Deus.
            Por exemplo, muitas pessoas hoje mentem para satisfazerem o ego. Logo, a vontade do seu ego, constituiu-se em idolatria. Muitos homens e mulheres estão dispostos a fazerem o que for para manter seus casamentos, mesmo que para isto seja necessário pecar. Desta forma o seu casamento tornou-se um ídolo.
            O ídolo, existencialmente falando, sempre deseja receber toda nossa devoção e, em contrapartida, nós queremos que nossos desejos e vontades pecaminosas sejam realizados. O ídolo então faz parte de um processo de troca de vontades pecaminosas.
            Podemos ver isto na vida de Adão e Eva, quando Eva após ser contaminada pela dúvida lançada pela serpente e de ter acreditado na sua mentira expressa (Gn 3.5; cf 2.17) permite que a inveja e a soberba lhe estimulassem a tomar do fruto, pois, segundo a serpente, eles seriam “como Deus” (Gn 3.5).
            Vejamos também a vida de Saul, quando não cumpriu a vontade de Deus, pois temeu mais a opinião do povo do que a voz de Deus (Gn 2.24). Esse é o pecado do medo da opinião pública contrária, do status. Na opinião de Deus isto se chama rebeldia e arrogância. Então Deus lhe disse por meio do profeta Samuel: “tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniqüidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” (1 Sm 15.22-23).

            O pecado não pode ser resolvido com por meio do esforço humano (Gn 3.7-10)

            O homem, quando observou a criação com os olhos corrompidos pelo pecado, viu impureza naquilo que Deus havia feito puro. E para esconderem-se da vergonha que o pecado lhes trouxe “coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais” (Gn 3.7). A tentativa do homem em encobrir o seu pecado foi frustrante e fracassada.
            Seus esforços pessoais, para cobrir seu estado de pecado diante dos olhos do Deus que Tudo Sabe, são no mínimo ridículos e sem lógica. Mas além de uma tentativa frustrante, esta cena também nos mostra como o homem muitas vezes tenta resolver o seu pecado com seus esforços pessoais. Como se ele pudesse resolver o problema de sua rebelião contra Aquele que é totalmente Santo, Justo e Bom.
            Muitas pessoas hoje tentam justificar seus pecados fazendo boas ações. Contribuindo para o bem do próximo. Ao fazerem isto pensam que podem amenizar o problema do seu pecado. Não sabem eles que, assim como Adão e Eva, estão tentando de forma frustrante “fazer aventais para si” na busca de cobrir sua culpa. Mas, assim como Adão e Eva, o homem moderno não percebe que esta atitude é inútil.  
            Na verdade, após o pecado, o homem agora apresenta as causas e não os sintomas. Adão justifica o fato de estar tentando se esconder da presença de Deus por causa de sua nudez. Quando a nudez é apenas um sintoma, mas a causa verdadeira da atitude de se esconder de Deus foi o pecado!
            Quantas vezes apresentamos os sintomas e não as causas. Eu tenho tentado revelar as causas dos meus pecados e não os sintomas. Já pedi perdão a minha esposa, após certo desentendimento, no qual externei muita chateação por causa de um atraso por parte dela. Mas, depois percebi que não deveria pedir perdão somente pela minha chateação, mas pelo meu egoísmo! O egoísmo foi a causa de minha chateação.
            Assim, podemos concluir que o pecado consiste em algo muito maior do que um pequeno erro ou deslize. Vivemos em uma sociedade que tem banalizado o pecado como algo normal. Em nossos dias as pessoas se mostram idólatras, onde preferem satisfazer seus próprios desejos, no lugar da vontade santa de Deus. Esperando que seu ídolo (seus próprios desejos) satisfaça suas expectativas. O pior é vermos pessoas buscando justificar seus pecados com seus próprios esforços. Que vida de fuga e sem esperança!
            Devemos buscar na vontade de Deus o nosso deleite, o nosso maior prazer e alegria. Mas o homem longe de Deus nunca conseguirá. Somente por meio de sua graça podemos ser perdoados e capacitados a servi-lo em santidade.


No amor de Cristo,
Pastor Gilberto Anselmo.

Soli Deo Gloria

sábado, 7 de março de 2015

O que está por traz da murmuração? (Êx 16.1-10)

Em nossa caminhada muitas vezes passamos por momentos de intensa provação. Situações onde tudo parece ir de mal a pior. Para alguns, a vida é um eterno sofrimento. Determinadas pessoas entram nesta vida chorando, passam toda a vida chorando e, por fim, saem dela chorando.
Diante de momentos como estes, somos levados a sentimentos extremos, e um sentimento bastante comum é a murmuração. Este é um típico sentimento de oposição a algo. Mas, o grande problema da murmuração é quando murmuramos contra Deus ou contra sua vontade Santa.
A Bíblia nos ensina que devemos fazer as coisas sem murmurações nem contendas (Fp 2.14). Esta postura está diretamente relacionada com a nossa santificação (Fp 2.15-16). Podemos ver que o próprio apóstolo Paulo tinha esta postura (Fp 2.17).
No texto de Êxodo 16 podemos ver um grande evento de murmuração, onde todo o povo, ou pelo menos a maioria do povo, murmura contra Moisés. Na verdade, eles estavam murmurando contra o próprio SENHOR. Esse ato de murmurar marcou o povo durante sua peregrinação no deserto. No entanto, apesar da murmuração parecer ser normal ou inevitável, Deus não se agrada de tal postura.
Eu gostaria de refletir sobre as causas espirituais da murmuração.
A murmuração reflete uma miopia espiritual, que nos faz ver o pior lado de todas as coisas, inclusive das bênçãos de Deus. O povo acabara de ter saído do Egito, após 400 anos de escravidão. Deus libertou este povo com mão forte e triunfou sobre todos os deuses do Egito (Êx 12.12). No entanto, pela condução de Deus eles estavam agora no meio de um deserto. No texto, podemos ver o povo murmurando contra o SENHOR, interpretando o livramento bondoso de Deus como sendo mal, pois o povo disse: “Quem dera tivéssemos morrido por mão do SENHOR na terra do Egito” (Êx 16.2). Veja que esse tipo de murmuração já havia sido feita anteriormente, na saída do Egito, quando o povo disse: “Não havia sepulcros no Egito, para nos tirar de lá, para que morramos neste deserto? Por que nos fizeste isto, fazendo-nos sair do Egito? Não é esta a palavra que te falamos no Egito, dizendo: Deixa-nos, que sirvamos aos egípcios? Pois que melhor nos fora servir aos egípcios, do que morrermos no deserto” (Êx 14.11-12). A murmuração fez com que o povo visse o pior lado do que estava acontecendo com eles. Eles não conseguiam enxergar as bênçãos de Deus. A amorosa ação de Deus em libertá-los parecia um ato cruel! Como temos enxergado a ação de Deus nos momentos difíceis de nossas vidas? Será que em meio ao sofrimento nós podemos ver a bondosa mão de Deus sobre nós?
A murmuração reflete falta de gratidão. A murmuração reflete uma falta de agradecimento para com aquilo que Deus tem feito em nossas vidas, mesmo em meio ao sofrimento. Veja que o povo havia sido liberto do cativeiro e não fazia muitos dias que eles, ao murmurarem viram Deus transformar as águas amargas de Mara em águas doces (cf Êx 15.24-25). Geralmente o que nos conduz à falta de gratidão é a amnésia espiritual. Isto acontece quando nos esquecemos da boa ação de Deus! Há um antigo hino que convida-nos a relembrarmos das bênçãos de Deus. O hino diz:
“Se da vida as vagas procelosas são,
Se com desalento julgas tudo vão 
Conta as muitas bênçãos, dize-as duma vez,
Hás de ver surpreso quanto Deus já fez.

Conta as bênçãos, conta quantas são.
Recebidas da divina mão.
Uma a uma, dize-as de uma vez,
Hás de ver surpreso quanto Deus já fez”.

Isto é o que aconteceu com Israel no Egito, eles esqueceram das muitas bênçãos de Deus, por isso, murmuraram! Provavelmente não muito tempo depois de Êxodo 16, o povo murmurou outra vez, agora por causa da sede (Êx 17.3). Eles pareciam ter esquecido do que o SENHOR fez em Mara (Êx 15.23-27). No lugar de ingratidão, de falta de reconhecimento daquilo que SENHOR tem feito, a Bíblia nos orienta a sermos gratos à Deus em tudo. Paulo escrevendo em 1 Tessalonicenses diz: “Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco”. No grego Paulo usa um imperativo! Dar graças em TUDO, não é uma opção, é um mandamento! Como tem andado nosso exercício de sermos gratos a Deus em todas as áreas de nossas vidas? Quando falhamos nesta área estaremos bem perto da murmuração. Um bom exercício seria agradecer ao SENHOR pelo que Ele tem feito, embora não tenha feito o que eu ainda desejo! Um bom exercício seria agradecer ao SENHOR pelo que Ele tem feito, embora não tenha feito o que eu ainda desejo! Você é capaz de fazer isto?
A murmuração reflete falta de fé. A murmuração do povo no deserto refletia também uma nítida falta de fé na bondade de Deus. O povo não mais olhava para Deus como aquele bondoso SENHOR, que ouviu o clamor do povo e os libertou. A Bíblia nos diz no Salmo 136.1: “LOUVAI ao SENHOR, porque ele é bom; porque a sua bondade (amor leal) dura para sempre.” O motivo de louvarmos a Deus, segundo o salmista é a bondade de Deus e o seu amor leal! Mas, quando murmuramos, mostramos nossa falta de fé nestas verdades. A murmuração mostra ainda falta de fé no poder de Deus! Muitas vezes estamos em situações de grande dor e murmuramos, pois achamos que aquela situação é o fim e que nunca poderá ser mudada. Isto reflete um conceito pequeno do poder de Deus. Paulo diz: “Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera,A esse glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém” (Ef 3.20-21). Quando somos colocados em situações difíceis na vida, nós realmente cremos no poder de Deus e somos levados a murmurar?
Murmuramos quando temos mais prazer nas coisas do mundo do que nas coisas de Deus. Por fim, muitas vezes o que está por detrás da murmuração não é porque desejamos algo melhor, mas porque temos dado mais valor às coisas do mundo do que as coisas de Deus. A opinião do povo foi “Quem dera tivéssemos morrido por mão do SENHOR na terra do Egito, quando estávamos sentados junto às panelas de carne, quando comíamos pão até fartar! Porque nos tendes trazido a este deserto, para matardes de fome a toda esta multidão”.O povo murmurou no deserto por causa das circunstâncias adversas, provavelmente a falta de comida. Mas, o que povo realmente revelou foi que amava mais a escravidão, do que a vida em liberdade com Deus. Eles amavam mais o Egito do que a presença de Deus. É melhor estarmos no deserto na presença de Deus, onde não há nada senão a Sua presença, do que na terra onde há fartura, mas onde não somos livres do pecado! O rei Davi expressa isto, quando diz: “Porque a tua bondade  (amor leal) é melhor do que a vida, os meus lábios te louvarão” (Sl 63.3). Moisés expressou sua paixão pela presença de Deus quando disse: “Então lhe disse: Se tu mesmo não fores conosco, não nos faças subir daqui. Como, pois, se saberá agora que tenho achado graça aos teus olhos, eu e o teu povo? Acaso não é por andares tu conosco, de modo a sermos separados, eu e o teu povo, de todos os povos que há sobre a face da terra?” (Êx 33.15-16) A presença de Deus tem sido nosso maior bem e nossa maior alegria em meio as dificuldades?
Todos nós passamos por momentos difíceis na vida. Mas, necessitamos recordar que a murmuração revela uma profunda fraqueza espiritual. Muitos podem até achar normal, mas afinal de contas ninguém é perfeito. No entanto, devemos lembrar que Deus não se agrada da murmuração. Paulo orienta em 1 Coríntios 10.10, dizendo: “E não murmureis, como também alguns deles murmuraram, e pereceram pelo destruidor”. No Antigo Testamento a murmuração sempre produziu um sentimento de indignação em Deus e em alguns casos até o juízo divino (Nm 14.2, 29; 16.11, 31-35).
No lugar de murmurarmos façamos ações de graças. Procure agora em meio ao seu sofrimento algo pelo que agradecer a Deus mesmo que nada esteja acontecendo como você deseja. Louve a Deus e creia no seu amor leal e no seu poder. Ame a presença de Deus e Ele com certeza trará paz à tua alma!


No amor de Cristo
Pastor Gilberto Anselmo.