quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Justificação e Obras na Epístola de Tiago


     
     Uma das verdades que mais influenciaram na conversão do reformador Martinho Lutero foi a doutrina da justificação pela fé somente (Rm 1.17; Hc 2.4). “Martinho Lutero entendeu que tanto a fé como a justificação do pecador, são obras de Deus, dom gratuito”.[1]
       Essa doutrina da justificação pela fé somente foi um resgate do ensino bíblico de que o homem é justificado pela fé, sem a necessidade de qualquer esforço humano (Rm 3.24,28; 4.1-5; 5.1; Gl 2.16; Ef 2.8-9; Fp 3.8-9). “Lutero só reafirmou o que os cristãos já compreendem há séculos, que a justificação é pela fé somente”.[2] Desde então, os reformadores da igreja e seus sucessores propagaram essa importante verdade bíblica.
       No entanto, alguns atacam essa doutrina dizendo que somente a fé não é suficiente e que as obras (ações caridosas e religiosas) são necessárias e cooperam com a fé para a salvação. Os que assim pensam utilizam o texto bíblico de Tiago 2.24, que diz: “vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé”.
       Em um primeiro momento, a leitura de Tiago parece ser contrária a leitura dos textos paulinos que falam de uma justificação pela fé. Então, fica a questão: como Tiago vê a justificação e as obras?
       Para responder a este questionamento temos que entender que Paulo e Tiago utilizam conceitos fé e obras de forma diferente. Em Paulo fé tem um sentido através do qual o crente tem uma união íntima com Cristo. Já Tiago parece estar falando de uma fé vazia e apenas nominal que alguns de seus opositores tinham. Na teologia paulina as obras são vistas como qualquer ato ou esforço feito pelo homem para que possa ser justificado. Na epístola de Tiago as obras são vistas como o espelho da fé daquele que já foi justificado em Cristo!
       Esta diferença de conceito se deve a um problema contextual. Paulo está combatendo um problema com os judaizantes que confiavam sua salvação na guarda da lei. Tiago, por sua vez, estava enfrentando um problema com pessoas que pensavam que apenas uma crença intelectual nas verdades do cristianismo era suficiente para a salvação (cf. Tg 2.14, 26).[3]
       Assim, “se o relacionamento inicial de uma pessoa com Deus pode ser estabelecido somente com base na fé (Paulo), o reconhecimento final deste relacionamento leva em conta as obras que, inevitavelmente, a verdadeira fé deve produzir (Tiago)”.[4]
       Por isso, podemos entender que quando Tiago diz que Abraão foi justificado pelas obras ao oferecer Isaque sobre o altar (Tg 2.21), não está negando que ele já havia sido justificado pela fé muito tempo antes, pois Abraão foi justificado pela fé quando creu (cf. Gn 15.6). Antes, o que Tiago quer dizer é que foi pelas obras que a fé foi consumada (Tg 2.22). Isto está em plena sintonia com o apóstolo Paulo, quando diz: “porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.8-10).
       Desta forma, devemos entender algumas verdades sobre esse tema: 

1) Todo crente é unido e justificado somente pela fé em Cristo Jesus (cf. Rm 5.1). Não precisamos de uma obra, esforço ou ato humano para nossa justificação; 

2) Todo crente deve através de sua conduta e obras demonstrar a genuinidade da sua justificação pela fé; 

3) Uma “fé barata” e “teórica/cognitiva” não condiz com a fé bíblica; e 

4) As obras por si só não podem justificar, pois qualquer obra ou ato de caridade sem a comunhão gerada pela fé em Cristo não passa de trapos de imundícia (Is 64.6).


No amor de Cristo,
Pr. Gilberto Anselmo.





[1] GONZALEZ, Justo L. A era dos reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 50.
[2] MACARTHUR JR, John. Justificação pela fé somente. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1995, p. 25.
[3] HOEKEMA, Anthony. Salvos pela graça. 2ª edição. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1995, p. 163.
[4] MOO, Douglas J. Tiago: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 114.

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