Uma das verdades que
mais influenciaram na conversão do reformador Martinho Lutero foi a doutrina da
justificação pela fé somente (Rm 1.17; Hc 2.4). “Martinho Lutero entendeu que
tanto a fé como a justificação do pecador, são obras de Deus, dom gratuito”.[1]
Essa doutrina da
justificação pela fé somente foi um resgate do ensino bíblico de que o homem é
justificado pela fé, sem a necessidade de qualquer esforço humano (Rm 3.24,28;
4.1-5; 5.1; Gl 2.16; Ef 2.8-9; Fp 3.8-9). “Lutero só reafirmou o que os
cristãos já compreendem há séculos, que a justificação é pela fé somente”.[2] Desde
então, os reformadores da igreja e seus sucessores propagaram essa importante
verdade bíblica.
No entanto, alguns
atacam essa doutrina dizendo que somente a fé não é suficiente e que as obras
(ações caridosas e religiosas) são necessárias e cooperam com a fé para a
salvação. Os que assim pensam utilizam o texto bíblico de Tiago 2.24, que diz:
“vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé”.
Em um primeiro momento,
a leitura de Tiago parece ser contrária a leitura dos textos paulinos que falam
de uma justificação pela fé. Então, fica a questão: como Tiago vê a
justificação e as obras?
Para responder a este
questionamento temos que entender que Paulo e Tiago utilizam conceitos fé e
obras de forma diferente. Em Paulo fé tem um sentido através do qual o crente
tem uma união íntima com Cristo. Já Tiago parece estar falando de uma fé vazia
e apenas nominal que alguns de seus opositores tinham. Na teologia paulina as
obras são vistas como qualquer ato ou esforço feito pelo homem para que possa
ser justificado. Na epístola de Tiago as obras são vistas como o espelho da fé
daquele que já foi justificado em Cristo!
Esta diferença de
conceito se deve a um problema contextual. Paulo está combatendo um problema
com os judaizantes que confiavam sua salvação na guarda da lei. Tiago, por sua
vez, estava enfrentando um problema com pessoas que pensavam que apenas uma
crença intelectual nas verdades do cristianismo era suficiente para a salvação
(cf. Tg 2.14, 26).[3]
Assim, “se o
relacionamento inicial de uma pessoa com Deus pode ser estabelecido somente com
base na fé (Paulo), o reconhecimento final deste relacionamento leva em conta as
obras que, inevitavelmente, a verdadeira fé deve produzir (Tiago)”.[4]
Por isso, podemos
entender que quando Tiago diz que Abraão foi justificado pelas obras ao
oferecer Isaque sobre o altar (Tg 2.21), não está negando que ele já havia sido
justificado pela fé muito tempo antes, pois Abraão foi justificado pela fé
quando creu (cf. Gn 15.6). Antes, o que Tiago quer dizer é que foi pelas obras
que a fé foi consumada (Tg 2.22). Isto está em plena sintonia com o apóstolo
Paulo, quando diz: “porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não
vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie;
porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus
preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.8-10).
Desta forma, devemos
entender algumas verdades sobre esse tema:
1) Todo crente é unido e justificado somente pela fé em Cristo Jesus (cf. Rm 5.1). Não precisamos de uma obra, esforço ou ato humano para nossa justificação;
2) Todo crente deve através de sua conduta e obras demonstrar a genuinidade da sua justificação pela fé;
3) Uma “fé barata” e “teórica/cognitiva” não condiz com a fé bíblica; e
4) As obras por si só não podem justificar, pois qualquer obra ou ato de caridade sem a comunhão gerada pela fé em Cristo não passa de trapos de imundícia (Is 64.6).
1) Todo crente é unido e justificado somente pela fé em Cristo Jesus (cf. Rm 5.1). Não precisamos de uma obra, esforço ou ato humano para nossa justificação;
2) Todo crente deve através de sua conduta e obras demonstrar a genuinidade da sua justificação pela fé;
3) Uma “fé barata” e “teórica/cognitiva” não condiz com a fé bíblica; e
4) As obras por si só não podem justificar, pois qualquer obra ou ato de caridade sem a comunhão gerada pela fé em Cristo não passa de trapos de imundícia (Is 64.6).
No amor de Cristo,
Pr. Gilberto Anselmo.
[1] GONZALEZ, Justo L. A era dos
reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 50.
[2] MACARTHUR JR, John. Justificação
pela fé somente. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1995, p. 25.
[3] HOEKEMA, Anthony. Salvos pela
graça. 2ª edição. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1995, p. 163.
[4] MOO, Douglas J. Tiago:
introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 114.
